Rupturas só acontecem com os despreparados – Artigo Exclusivo
Por Didier Marlier*
Em seu excelente livro Empresas proativas: como antecipar mudanças no mercado, os professores Leonardo Araújo e Rogério Gava contam uma história fascinante: em 1877, se alguém desejasse tirar uma foto, tinha que gastar uma fortuna (para a época) de 50 dólares, comprar um kit de material extra e ir a aulas para aprender como fotografar e revelar as fotos. Após onze anos, a Kodak provocou uma ruptura nesse panorama ao oferecer uma câmera que prometia tirar 100 fotos ao preço de 25 dólares. A mesma empresa ainda se encarregava de revelar as fotos e o aparelho era facilmente manipulável com uma mão só…
Mas esse tremendo sucesso também já continha as raízes da queda violenta da Kodak, 124 anos mais tarde. A empresa fracassou, vítima do que chamamos de uma “ortodoxia,” que a impediu de reconhecer rapidamente a emergência da fotografia digital e, pior ainda, o surgimento das câmeras nos celulares.
Ao contrário do exemplo da Kodak, a corajosa decisão da famosa Enciclopédia Britânica – um verdadeiro mito de conhecimento e cultura e item de colecionadores – de não ser mais publicada em versão papel e sim somente na versão digital talvez salvará a vida dessa instituição. Eles provavelmente conseguiram identificar em tempo uma ortodoxia e se livraram dela.
Mas o que são essas “ortodoxias”? Segundo Joseph Ledoux, um dos mais famosos neurocientistas do momento, nosso cérebro recebe 11 milhões de informações por segundo das quais só 50 são tratadas de maneira consciente! Nosso cérebro está desesperadamente tentando simplificar seu meio ambiente e função de decisão a fim de acomodar tantos dados. Além disso, o cérebro “consciente” pode precisar de até 50 vezes mais energia corporal que o nosso cérebro inconsciente. O objetivo do nosso corpo está em passar o máximo de informação do cérebro consciente e consumidor de energia, para o cérebro “piloto automático”.
O que é que isso tem a ver com a Kodak ou a Enciclopédia Britânica? O mesmo fenômeno que acontece inconscientemente no cérebro humano ocorre nas salas de reuniões das nossas diretorias executivas.
Nos anos 1990, o biólogo chileno Francisco Varela descobriu que, diante de situações que necessitavam de pensamentos “fora da caixa”, nosso cérebro usava, pelo menos, 80% dos inputs baseados no passado.
Como fazer para impedir que o nosso reflexo instintivo nos faça cometer erros estratégicos tão graves? Mandar esse artigo ao seu redor, por exemplo…
Brincadeiras à parte, é importante entender que o cérebro humano nos incentiva a tomar uma atitude conservadora e repetitiva. Estaremos, assim, mais cautelosos com nossa intuição. Portanto:
*Encoraje o feedback. Nos tempos em que eu fui uma espécie de prefeito na minha cidade na Suíça, tinha incentivado, desde o inicio, todos a se sentirem iguais e “donos do negócio”. Nunca esquecerei que o Vivian, um aprendiz de 17 anos, me salvou de um erro grave que eu ia cometer sem saber. Com coragem, o garoto me desafiou e consegui reparar o erro.
*Crie uma “organização inteligente”. Num mundo cada vez mais complexo, é ilusório pensar que a diretoria sozinha terá as soluções do futuro. Estamos vivendo uma profunda mutação entre um contexto de liderança “simples e complicado” e um mais complexo e caótico que está emergindo. Cada vez mais, estamos sentados em reuniões onde líderes visionários convidam ideias, sugestões e críticas dos seus liderados a fim de reinventar sua organização.
*Crie uma “organização inteligente”. Num mundo cada vez mais complexo, é ilusório pensar que a diretoria sozinha terá as soluções do futuro. Estamos vivendo uma profunda mutação entre um contexto de liderança “simples e complicado” e um mais complexo e caótico que está emergindo. Cada vez mais, estamos sentados em reuniões onde líderes visionários convidam ideias, sugestões e críticas dos seus liderados a fim de reinventar sua organização.
O famoso homem do teatro irlandês George Bernard Shaw já dizia em 1898: “Há muitas pessoas que se queixam das circunstâncias… Eu não acredito em circunstâncias… Os que conseguem o que desejam na vida são aqueles que se levantam e procuram as circunstâncias que querem e, se estas não existem, eles as inventam”.
Ser a próxima Kodak ou ter a coragem da Enciclopédia Britânica? Espero que nunca tenham de estar diante de escolhas tão radicais. Mas evitá-las começa com desafiar as ortodoxias da sua organização hoje.
*Didier Marlier é consultor internacional e sócio-fundador da Enablers Network, com sede na Suíça. Atende a empresas do Brasil, da Europa, Ásia e dos Estados Unidos. Em 2011, participou do CONARH ABRH em palestra sobre o papel dos líderes para o engajamento, colaboração e alianças para que as organizações alcancem resultados competitivos.